sábado, 24 de janeiro de 2009

Se equilibra sobre as pernas trêmulas. O coração não mais agüenta. Apoia-se nas cordas, enquanto o amigo finge ser se oponente, caído. Todos gritam, sim, gritam. Não gritos de ódio, de escárnio, mas gritos de amor. Sim, o público é tudo o que lhe restou. Sua família, que o ama a cada vez que mostra seu sangue. É seu fim, mas também seu recomeço. Escala as cordas, elásticas. Suas pernas tremem, tentando equilibrar-se. Medo, ânsia, dor. Não encontra mais a amiga. É a hora, vem o fatídico e mortal pulo. Pula.

Uma singela homenagem (e infelizmente não muito boa) a Mickey Rourke e Daren Aronofsky. Espero que Mickey, após o fatídico salto literalmente mortal, continue a dar muitos outros saltos.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Uma inexistência.

Silêncio. Silêncio é o que se ouve. Sozinho, totalmente sozinho. A família decompõe-se na sala, em um sorriso de morte. Os olhos do pai são vermes. O nariz da irmã é uma fenda. O amigo está morto, a amiga está morta. É tudo silêncio. Sozinho, sozinha. Não faz mais diferença ser ele ou ela, não quando se é um só, não havendo mais eles ou elas. Sozinha. No silêncio se ouve o Réquiem da humanidade: o pássaro que grita, o cão que implora ao dono decomposto que o alimente, antes que tenha o mesmo destino deste. O céu é azul, vibrantemente azul. O mundo parece feliz ao ver a decomposição da espécie humana. Sim, da espécie, afinal, um só ser não constitui mais uma espécie. Um ser, sozinho, à mercê do que restou. À mercê do odor putrefato que toma o mundo, à mercê da fome dos animais, à mercê dos pobres vírus, bactérias, protozoários, que terminam de devorar seus últimos hospedeiros e preparam-se para sua própria extinção. Hei mesmo de estar sozinha? Sete dias sem fumaça, sem buzinas, sem vozes. Sete... tão primo quanto o número de sobrevividos. O sol torra o bêbado à calçada, o cheiro de carne assada espalha-se pelas redondezas do boteco. Os urubus terminam seu almoço: uma pilha de uma família, no meio do mato, sobre uma toalha. Cesta, frutas podres, pães embolorados. Um pique-nique aviário. O odor morto, pode, metanóico, escuro, nojento, causa náuseas. Hei de tornar-me acostumada, será constante até o fim de todos. Fim de todos... estarei vivo até o fim de todos? Será o fim de todos o meu fim? Esperarei meu fim? No escuro da noite ouço sons, sons que não identifico. Sete dias de breu. Choro. Sim, choro, na esperança que mão seja a última, na esperança de que ainda haja alguém no mundo. Um alguém que, ao não existir, sempre esteja presente, comigo, que jamais me deixe sozinha. Petética. Sim, sou patético. Lágrimas de nada servem aos que existem, quanto mais aos que não existem. Um redemoinho. O diabo, na rua, no meio de redemunho. O céu claro. O redemunho. O verde vibrante, alegre, das árvores. A grama vívida nas praças, agora livres do pisoteamento. As ruas limpas, todos a decompor-se em suas próprias casas. Um eterno domingo. Qual o sentido de se viver sozinha senão viver? Sou dona do mundo. Não, não sou, pois não há quem não seja. Sou e não sou dono. Não existe mais a posse. A humanidade, enfim, conseguiu atingir a igualdade: seu fim. Todos iguais, sozinhos, sozinhas, sós. Todos com tudo, todos sem nada. O mundo é do mundo. E eu, sozinho. Todos juntos, mortos. E eu, novamente sozinho. Sozinha a vida toda.

Marina.

Marina, sim, Marina, onde está Marina? Se agarrando com o outro, tenho certeza. Se não se agarrando, pensando no outro, fazendo coisa com o outro. Rindo com a amiga. É do que escrevi, sim, é do que escrevi. Olha e ri, olha e ri, olha e ri, um risozinho dissimulado. Escrevi, com muita dor, com olhos molhados. E ela ri. Não ri porque é alegre, não senhor. Ri porque despreza, ri porque não gosta. Ri porque assim me ridiculariza ali. Prefere o outro, que tem carro, que pode comprar, que nunca muda, que é sempre o mesmo idiota. Me chama de louco, me diz que invento coisas, que não mato o passado. Como matar o passado se o passado é como o presente? Não falo mais com Marina, odeio Marina, fico contrariado por ter que falar com Marina. Mas aí Marina vem, às vezes com jeito doce, e gosto de Marina, amo Marina, quero Marina. Quero não querer Marina, nunca mais Marina, sumir Marina, sumir galinhas que cercam Marina, que cacarejam ao redor de Marina e que galinhizam Marina.
Marina não é prazer. Marina é dor, Marina é amor à dor, ao desprazer, à tortura. Marina já não é mais a Marina. Ou é o fim de Marina, ou Marina é o fim.

My heart feel sick, and it heart when I speak

Sozinho; ainda de pé as 4 da manhã. Todavia insônia nunca me foi algo extraordinário, todas as noites semelhantes a essa, por todos os dias de uma determinada época fizeram desta algo mais presente, e de certa forma incomodo, do que a própria solidão.
Solidão; palavra que toma vida própria, que gera tal sensação de agonia e um desespero agudo, sofisticado, evoluido, imune a quase todas as medidas que se poderia tomar em relação a tal sentimento; solidão representa medo, um medo de, ah, quem sabe medo de ser a ultima pessoa do mundo, ou medo de nunca ter certeza de que terá alguém por perto tempo suficiente pra que não consiga se lembrar mais de como é se sentir só.
E por um acaso, pra quem acredita em acaso, quase todas as pessoas que foram capazes de se encaixar nesse 'alguém', todas que disfarçam a solidão, melhoram o medo, remediam o desespero, abandonaram seus postos.
Devo dizer que escrever na terceira pessoa não me agrada, confesso que pela tendência as vezes incontrolável que tenho de me meter nos assuntos que 'manuseio'.
Todavia outro 'autor' (honestamente, acho pretenção de minha parte, e bondade da de outras pessoas, me considerar um autor, por mais que no sentido literal da palavra isso não estaria de forma alguma errada, todavia me soa de forma honorável demais) que aqui se encontra o faz, portanto a este devo respeito.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

se deita. o barulho do ventilador o impede de dormir. o calor da noite o impede de desligar o ventilador. as idéias fora do lugar, a insônia e a falta de motivação o levam de volta ao computador. já não há mais alguém pra pensar minutos antes de pegar no sono, ou pra o acordar com um telefonema logo pela manhã. dormirá até pouco mais da metade do dia. só lhe falta o sono...

nunca tivera férias tão monótonas e tão fantásticas como essas.

while I still sane...

começa a escrever. idéias surgem umas sobre as outras, dificultando o processo. minutos depois surge o resultado: melancolia barata, miséria, ironia e sarcasmo. o lado escuro do autor. alguns pensam que ele está louco. mas cometeram um engano...

ele ainda está são.