quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Uma inexistência.

Silêncio. Silêncio é o que se ouve. Sozinho, totalmente sozinho. A família decompõe-se na sala, em um sorriso de morte. Os olhos do pai são vermes. O nariz da irmã é uma fenda. O amigo está morto, a amiga está morta. É tudo silêncio. Sozinho, sozinha. Não faz mais diferença ser ele ou ela, não quando se é um só, não havendo mais eles ou elas. Sozinha. No silêncio se ouve o Réquiem da humanidade: o pássaro que grita, o cão que implora ao dono decomposto que o alimente, antes que tenha o mesmo destino deste. O céu é azul, vibrantemente azul. O mundo parece feliz ao ver a decomposição da espécie humana. Sim, da espécie, afinal, um só ser não constitui mais uma espécie. Um ser, sozinho, à mercê do que restou. À mercê do odor putrefato que toma o mundo, à mercê da fome dos animais, à mercê dos pobres vírus, bactérias, protozoários, que terminam de devorar seus últimos hospedeiros e preparam-se para sua própria extinção. Hei mesmo de estar sozinha? Sete dias sem fumaça, sem buzinas, sem vozes. Sete... tão primo quanto o número de sobrevividos. O sol torra o bêbado à calçada, o cheiro de carne assada espalha-se pelas redondezas do boteco. Os urubus terminam seu almoço: uma pilha de uma família, no meio do mato, sobre uma toalha. Cesta, frutas podres, pães embolorados. Um pique-nique aviário. O odor morto, pode, metanóico, escuro, nojento, causa náuseas. Hei de tornar-me acostumada, será constante até o fim de todos. Fim de todos... estarei vivo até o fim de todos? Será o fim de todos o meu fim? Esperarei meu fim? No escuro da noite ouço sons, sons que não identifico. Sete dias de breu. Choro. Sim, choro, na esperança que mão seja a última, na esperança de que ainda haja alguém no mundo. Um alguém que, ao não existir, sempre esteja presente, comigo, que jamais me deixe sozinha. Petética. Sim, sou patético. Lágrimas de nada servem aos que existem, quanto mais aos que não existem. Um redemoinho. O diabo, na rua, no meio de redemunho. O céu claro. O redemunho. O verde vibrante, alegre, das árvores. A grama vívida nas praças, agora livres do pisoteamento. As ruas limpas, todos a decompor-se em suas próprias casas. Um eterno domingo. Qual o sentido de se viver sozinha senão viver? Sou dona do mundo. Não, não sou, pois não há quem não seja. Sou e não sou dono. Não existe mais a posse. A humanidade, enfim, conseguiu atingir a igualdade: seu fim. Todos iguais, sozinhos, sozinhas, sós. Todos com tudo, todos sem nada. O mundo é do mundo. E eu, sozinho. Todos juntos, mortos. E eu, novamente sozinho. Sozinha a vida toda.

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